quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Discurso contra a tolerância



Tolerância: 1.Qualidade de tolerante; 2.Ato ou efeito de tolerar; 3.Pequenas diferenças para mais ou para menos; 4.Respeito ao direito que os indivíduos têm de agir, pensar e sentir de modo diversos do nosso.

Tolerante: 1. Que desculpa; indulgente; 2. Que admite e respeita opiniões contrárias à sua.

Tolerar: 1.Aceitar, admitir ou conviver com (algo ou alguém) indulgentemente; 2. Consentir tacitamente;  3. Ter certa capacidade ou resistência para suportar;  4.Assimilar (medicamento sem sofrer (graves) alterações orgânicas.; Tolerável (adj).

 Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio: o dicionário da língua portuguesa. 6ª edição. Curitiba: Positivo, 2006

         Desde cedo encasquetei com a palavra tolerância. Muito disso aconteceu porque ouvia meu avô materno repetir diversas vezes sobre o que (quem) não lhe agradava a seguinte frase: “Eu não tolero tal coisa (ou tal pessoa)”. O som da palavra já passou a me trazer sentimento de reprovação e, confesso, até hoje não curto essa história de tolerância.
         Há tempos quis escrever algo sobre conflitos entre povos e a palavra tolerância surgia na fala e nos textos de diversas pessoas e fui ao dicionário (como fiz novamente para esse texto) para tentar apurar seu significado oficial em nossa língua. O que era uma pulga atrás da orelha se transformou numa confirmação, pois percebo que seu significado está atrelado a uma postura arrogante da parte de quem tolera, uma espécie de permissão obtida pelo dominado diretamente do dominante.
         Os últimos dias foram exemplares da loucura em que vivemos, principalmente em relação aos conflitos nas ruas do Rio de Janeiro, na postura das polícias militares dos estados, na morte do câmera da Band, nos discursos de ódio proferidos na TV aberta por Raquel Shehezade do SBT,  de Ricardo Boechat (Band), os quais colaboram para "legitimar" os tais ‘justiceiros’ de plantão (seguidores da distorcida e superada lei de talião).


       Sem contar na possibilidade de existirem rumores na Câmara dos deputados  de que, depois de Marco Feliciano, poderíamos ter Jair Bolsonaro como presidente da Comissão de Direitos Humanos, ou seja, pela segunda vez teríamos um presidente de comissão que abertamente atenta contra os direitos humanos e tem como lema: direitos humanos para humanos direitos (leia-se de direita).
       Não bastassem as péssimas notícias acima, diversas universidades retomaram suas aulas nos últimos dias e os trotes absurdos voltam a ser matéria de jornais, telejornais e afins. Como normalmente gostam de dizer por aí, o futuro da nação está nas cadeiras universitárias, numa fé iluminista de que tudo se resolverá quando se investir mais em educação nesse país. Vejamos por exemplo a recepção de alguns veteranos da tradicional Faculdade Cásper Líbero (parte de nossa elite intelectual universitária) a seus novos colegas. Aos moldes dos ‘justiceiros’ cariocas, resolveram amarrar seu novo colega a um poste em plena Avenida Paulista. Para as moças que serão suas colegas o trote era simular sexo oral com bananas e pepinos, sendo executado inclusive por veteranas com a justificativa que passaram por isso em anos anterior e agora queriam que elas também passassem.

          
      Diante de tantos absurdos fica difícil opinar de forma equilibrada, pois a enxurrada de emoções que são despertadas são fortes e muitas vezes difusas. Isso sem contar a histeria dos noticiários, não somente dos sensacionalistas explícitos, mas da mídia tradicional e coxinha.
    Observando os fatos históricos e sociais e verificando as causas desses desarranjos e insatisfações, tentando não ser levado pelas consequências e pela gritaria imbecil de tantos (de)formadores de opinião, penso que a tolerância não seja o caminho a seguirmos. Caso a opção seja por esse caminho, apenas estaremos legitimando a elite (ainda!) escravocrata brasileira e seus bajuladores tradicionais, justamente pelo fato de que tolerar seria algo consentido, aceito, “assimilado sem produzir alteração orgânica”, ou seja, receber migalhas sem alterar o que realmente os trabalhadores necessitam.
     A continuação e ampliação da mudança que temos conquistado desde 2003 através de maior distribuição de renda, do aperfeiçoamento das instituições democráticas e para alcançarmos justiça social, passa também pelas importantes reformas que são urgentes, tais como a agrária, a urbana, a política (e eleitoral), melhora no atendimento dos serviços públicos e privados, tributação de grandes fortunas e a garantia de acesso aos direitos básicos a todos e todas. Não como algo que nos é dado, mas como compromisso de um governo com seu povo sofrido e com movimentos sociais que lutam contra uma elite escravocrata (‘dona’ das polícias militares, dos meios de comunicação e adulada pelo poder judiciário e por parte do legislativo).
             

Saudações intolerantes!

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